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Posts Tagged ‘Comportamento Verbal’

“Acho que se ela não teve coragem de falar pra mãe vai falar pro brasil todo ver?”

Foi essa frase que me fez ver a entrevista que a Xuxa concedeu ao Fantástico no domingo no dia 20 de maio de 2012.  Encontrei esta frase em um comentário no Facebook e ela ficou ecoando na minha cabeça porque eu sabia que era perfeitamente possível que uma criança não contasse para os pais que sofreu abuso e muitos anos depois, quando já adulto, contasse o que sofrera em uma situação pública.

O que acontece é que, apesar de a pessoa ser a mesma, as contingências mudaram. O nosso comportamento verbal também tem seus determinantes. Ou seja: falamos o que falamos por algum motivo. Normalmente, por vários motivos.

Quando a criança sofre abuso, é comum ela não contar o que esta acontecendo com ela porque as contingências que controlam o seu comportamento são aversivas. Contingências estas que geram sentimentos de medo, culpa e vergonha.

No site Chilhood responderam a pergunta “Porque as crianças não contam que elas têm sido abusadas?” da seguinte forma:

Por várias razões – todas compreensíveis. Em geral, o abusador convence a criança de que ela será desacreditada se revelar algo; que ela gosta daquilo e quer que aconteça; ou que é igualmente responsável pelo abuso e será punida por isso. É possível também que a criança sinta-se protegida por seu abusador e ache que estaria cometendo uma traição se falasse sobre o contato sexual entre ambos a outras pessoas. No caso de ter experimentado prazer físico, excitação ou intimidade emocional com o abuso, a criança provavelmente se sente confusa, o que a impedirá de falar. A fim de manter o ato em segredo, o abusador joga com o medo, a vergonha ou a culpa de sua vítima. Vale ressaltar que não existem situações nas quais uma criança seja responsável por qualquer interação sexual com um adolescente ou um adulto.

Nesta respostas eles explicitam as contingências aversivas que fazem com que uma criança se cale frente ao abuso.

E o que faz um adulto falar sobre uma experiência tão aversiva sobre a qual calou na infância?

Os motivos que levam um adulto a falar sobre o tema podem ser muitos.  Segundo Meyer (2008) “O comportamento verbal usualmente possui múltiplas fontes de controle. Uma única resposta pode ser função de mais de uma variável e uma única variável usualmente afeta mais de uma resposta.”

Em um adulto, com uma história de vida complexa e em um ambiente também complexo, não é apenas um motivo que o faz falar sobre determinado tema. Se no passado a criança calou por estar sob controle de contingências aversivas, muito provavelmente aquelas contingencias já não existem ou deixaram de controlar o comportamento daquele mesmo indivíduo quando adulto. O adulto encontra-se sob controle de outras contingências, e é para elas que devemos olhar.

Por isso, é verossímil que a apresentadora 1) realmente tenha sofrido abuso quando criança; 2) não tenha contado nada aos pais quando criança; 3) tenha contado na televisão que sofreu abuso 40 anos depois. As causas deste comportamentos são diferentes.

É importante alertar que, mesmo com novas contingências controlando o comportamento do adulto, isso não significa que não possa ser doloroso para ele falar sobre o assunto. E as consequências danosas do abuso podem continuar lá, mesmo que o adulto consiga falar sobre os acontecimentos.

O mais interessante é que, aparentemente, o fato de a apresentadora ter contado que sofreu abuso sexual na infância serviu de modelo para que muita gente resolvesse denunciar casos de violência domestica. Ou seja: a própria entrevista da Xuxa serviu de contexto  para que muitas pessoas ligassem (emitissem seu próprio comportamento verbal) para o serviço de denuncia de abuso.

Como dissemos, o comportamento verbal tem múltiplas causas (bem como, a maioria dos comportamentos). Por isso, antes de simplesmente duvidar do que está sendo dito, é importante analisar o contexto daquilo que está sendo dito.

Referência

MEYER, S. (et all.) 2008, Subsídios da obra “Comportamento Verbal de B.F. Skinner para a Terapia Analitico-Comportamental”. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Belo Horizonte-MG, 008, Vol. X, nº ,1 05-118

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