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Archive for the ‘Poesia’ Category

Não condenamos

o parentesco pródigo.

As ausências são perfeitas.

Incriminei a mãe para não sofrer sozinha.

Ela aparou as feições, sustentou a prole.

preparou estoque na despensa para um dia gastar,

aproveitou as garrafas vazias para encilhar o muro.

Capaz de adulterar os fatos

para me poupar da crueldade.

Sua proteção me deixou vulnerável.

Fabrício Carpinejar, poema do livro Cinco Marias

O Poeta Fabrício Carpinejar descreveu como alguns comportamentos da mãe tornaram a filha um adulto com baixa resisitência a frustração. Guilhardi explica bem isso neste trecho do texto Aspectos Éticos e Técnicos da prática psicoterápica:

“O controle positivo pode produzir seres humanos bastante desadaptados. O reforçamento contínuo leva a um desenvolvimento, em que a pessoa tem baixa resistência a frustração, dando origem a adultos frustrados, sem iniciativa, dependentes e que, em geral, se tornam agressivos, em particular contra as pessoas que os reforçaram. A argumentação de que o amor implica em liberar consequências reforçadoras, porém de forma não contingente, não diminui a gravidade do problema. Aquilo que é “bom” reforça, independente do desejo do controlador. Mais que isso, fortalece algum comportamento, mesmo que seja de maneira supersticiosa. A não consciência, por parte de quem maneja os eventos e por parte de quem é o receptor desse manejo, gera graves distorções. Lembro-me de um cliente que se casou e descobriu, espantado, que não tinha a menor idéia de quanto devia pôr de leite e de café no seu copo para preparar o café com leite, porque a mãe, a vida inteira, lhe trouxe pronto. É obvio que o papel da mãe foi preenchido pela esposa. A partir daí, a relação deixa de ter o status de marido-mulher e mais se aproxima do padrão mãe-filho. Esse cliente nãe se queixou nunca de não ter sido amado, mas é infeliz e dependente… Muitos outros exemplos clínicos poderiam ser apresentados de como o amor destrói…”

Helio Guilhardi

No poema observamos que mãe não apenas reforçava constantemente o comportamento da filha como também não deixa que ela entre em contato com as consequências aversivas naturais de seus comportamentos – “Capaz de adulterar os fatos para me poupar da crueldade” – cumprindo, desta forma, o seu papel de “mãe zeloza”.

Claro que cabe aos pais protejer seu filho quando estes ainda não são capazes de fazê-lo. Contudo, também cabe a eles educar o filho para que no futuro ele possua um repertório comportamental que o permita lidar com problemas e situações aversivas quando estas aparecerem. Se durante a infância e adolescencia as contingências aversivas nunca (ou pouco) lhe forem apresentadas, no futuro provavelmente este filho não saberá lidar com elas.

Não existe uma receita pronta para isso e – acalmem-se pais! – nem tudo sairá perfeito, contudo existem comportamentos paternos que podem ajudar as crianças a aprenderem em como lidar com contingêncas. O principal é deixar que a criança entre em contato com as consequências do seu comportamento, sempre de forma segura, e dando suporte emocional para estas situações. Tudo feito dentro das limitações da criança em cada idade, mas lembre-se: a criança só poderá aprender quando entrar em contato com as contingências. Isso é crescer, amadurecer.

Os processos de aprendizagem implicam em emitir comportamentos simples e, dependendo das consequências destes, passar a emitir comportamentos cada vez mais complexos. O papel dos país não é retirar por completo as contingências aversivas do ambiente da criança – é introduzi-las no ambiente a medida em que a criança for aprendendo a lidar com elas.

Criar um adulto com baixa resistênca a frustração pode ser uma armadilha inclusive para os pais, já que seus filhos quando adultos serão  “sem iniciativa, dependentes e que, em geral, se tornam agressivos, em particular contra as pessoas que os reforçaram” como descreveu Guilhardi ou, como disse em Carpinejar em linguagem poética, “Incriminei a mãe para não sofrer sozinha (…) Sua proteção me deixou vulnerável.”

Não, Carpinejar, as ausências não são perfeitas, mas tampouco o é a presença desmedida.

Bibliografia

Carpinejar, F. (2007). Cinco Marias: poemas. 3 Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro-RJ. (p. 56)

Guilhardi, H. Aspectos Éticos e Técnicos da Prática Psicoterápica. Disponível em: http://www.terapiaporcontingencias.com.br Acessado em 29 de abril de 2012.

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“Poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia é na calçada”
Sergio Sampaio

Só posso concordar com esta música. Que delicia é se deparar com um poema escrito onde menos esperamos! Por isso tanto me agrada a inciativa de colocar poemas em Ônibus e Trens de Porto Alegre. É interessante que um lugar que já tenha inspirado tantos escritores, em especial os cronistas, agora seja um lugar também de exposição poética. Topar com um desses torna o dia muito mais interessante.

Toda vez que venho a cidade me encanto com alguns destes versos. Hoje meus pensamentos foram tomados por um deles enquanto usava o trem para me deslocar de Canoas a Porto Alegre. Compartilho-o com vocês:

Dias melhores verão…

Desfruta
sem pressa
essa tua primavera
quando o verão chegar
e fores fruto maduro
vou te colher
com apuro
e te comer
de colher

Germana Konrath


					

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