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Archive for abril \29\UTC 2012

Não condenamos

o parentesco pródigo.

As ausências são perfeitas.

Incriminei a mãe para não sofrer sozinha.

Ela aparou as feições, sustentou a prole.

preparou estoque na despensa para um dia gastar,

aproveitou as garrafas vazias para encilhar o muro.

Capaz de adulterar os fatos

para me poupar da crueldade.

Sua proteção me deixou vulnerável.

Fabrício Carpinejar, poema do livro Cinco Marias

O Poeta Fabrício Carpinejar descreveu como alguns comportamentos da mãe tornaram a filha um adulto com baixa resisitência a frustração. Guilhardi explica bem isso neste trecho do texto Aspectos Éticos e Técnicos da prática psicoterápica:

“O controle positivo pode produzir seres humanos bastante desadaptados. O reforçamento contínuo leva a um desenvolvimento, em que a pessoa tem baixa resistência a frustração, dando origem a adultos frustrados, sem iniciativa, dependentes e que, em geral, se tornam agressivos, em particular contra as pessoas que os reforçaram. A argumentação de que o amor implica em liberar consequências reforçadoras, porém de forma não contingente, não diminui a gravidade do problema. Aquilo que é “bom” reforça, independente do desejo do controlador. Mais que isso, fortalece algum comportamento, mesmo que seja de maneira supersticiosa. A não consciência, por parte de quem maneja os eventos e por parte de quem é o receptor desse manejo, gera graves distorções. Lembro-me de um cliente que se casou e descobriu, espantado, que não tinha a menor idéia de quanto devia pôr de leite e de café no seu copo para preparar o café com leite, porque a mãe, a vida inteira, lhe trouxe pronto. É obvio que o papel da mãe foi preenchido pela esposa. A partir daí, a relação deixa de ter o status de marido-mulher e mais se aproxima do padrão mãe-filho. Esse cliente nãe se queixou nunca de não ter sido amado, mas é infeliz e dependente… Muitos outros exemplos clínicos poderiam ser apresentados de como o amor destrói…”

Helio Guilhardi

No poema observamos que mãe não apenas reforçava constantemente o comportamento da filha como também não deixa que ela entre em contato com as consequências aversivas naturais de seus comportamentos – “Capaz de adulterar os fatos para me poupar da crueldade” – cumprindo, desta forma, o seu papel de “mãe zeloza”.

Claro que cabe aos pais protejer seu filho quando estes ainda não são capazes de fazê-lo. Contudo, também cabe a eles educar o filho para que no futuro ele possua um repertório comportamental que o permita lidar com problemas e situações aversivas quando estas aparecerem. Se durante a infância e adolescencia as contingências aversivas nunca (ou pouco) lhe forem apresentadas, no futuro provavelmente este filho não saberá lidar com elas.

Não existe uma receita pronta para isso e – acalmem-se pais! – nem tudo sairá perfeito, contudo existem comportamentos paternos que podem ajudar as crianças a aprenderem em como lidar com contingêncas. O principal é deixar que a criança entre em contato com as consequências do seu comportamento, sempre de forma segura, e dando suporte emocional para estas situações. Tudo feito dentro das limitações da criança em cada idade, mas lembre-se: a criança só poderá aprender quando entrar em contato com as contingências. Isso é crescer, amadurecer.

Os processos de aprendizagem implicam em emitir comportamentos simples e, dependendo das consequências destes, passar a emitir comportamentos cada vez mais complexos. O papel dos país não é retirar por completo as contingências aversivas do ambiente da criança – é introduzi-las no ambiente a medida em que a criança for aprendendo a lidar com elas.

Criar um adulto com baixa resistênca a frustração pode ser uma armadilha inclusive para os pais, já que seus filhos quando adultos serão  “sem iniciativa, dependentes e que, em geral, se tornam agressivos, em particular contra as pessoas que os reforçaram” como descreveu Guilhardi ou, como disse em Carpinejar em linguagem poética, “Incriminei a mãe para não sofrer sozinha (…) Sua proteção me deixou vulnerável.”

Não, Carpinejar, as ausências não são perfeitas, mas tampouco o é a presença desmedida.

Bibliografia

Carpinejar, F. (2007). Cinco Marias: poemas. 3 Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro-RJ. (p. 56)

Guilhardi, H. Aspectos Éticos e Técnicos da Prática Psicoterápica. Disponível em: http://www.terapiaporcontingencias.com.br Acessado em 29 de abril de 2012.

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Em 2004 o Encontro anual da  Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC)* aconteceu em Campinas. Estava no quarto ano de faculdade e na minha terceira ABPMC.

Naquele ano comemorava-se os 100 anos do nascimento de B. F. Skinner (1904-1991), fundador do Behaviorismo Radical, teoria em torno da qual a ABPMC se organiza. A própria filha de Skinner compareceu no evento, Julie S. Vargas, e nos presenteou com algumas de suas histórias.

Por conta das comemorações, havia no evento 100 citações do Skinner em pequenos cartazes espalhados pelos salões e corredores do hotel sede do Encontro.

Ao final do evento perguntei se poderia levar alguns embora e, frente a autorização da organização, recolhi 14 cartazes. Destes, 12 foram parar na porta e na parede do meu quarto, como pode-se ver na foto acima, e lá ficaram até final de 2006 quando mudei de apartamento.

Já não tenho mais cartazes em meu quarto, contudo as frases de Skinner continuam ecoando no meu organismo, no meu ambiente, no meu comportamento.

* Atualmente mudou o nome para Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, mas mantém a mesma sigla e a mesma qualidade.

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“Nonetheless, Keller led the way in discounting the entertaining lecture as an adequate form of instruction. He knew that learning, like research, should be driven by the actions of the student- the student, not the teacher, is the performer. The professor arranges the contingencies so that the student responds and moves at his own pace by encouragement and corrective prompts until mastery occurs. If the student does not learn, it is up to the teacher to fix it!” Douglas Greer, Carl Cheney, Julie S. Vargas

“Good-bye Teacher”… Fred Keller (1899-1996)

“Não obstante, Keller liderou o rebaixamento das palestras de enterteirimento como uma forma adequada de instrução. Ele sabia que aprender, assim como pesquisar, deveria ser dirigido pelas ações do estudante – o estudante, e não o professor, é o protagonista. O professor arranja as contingencias para que o estudante responda e se mova em seu próprio ritmo por meio de aprovações e correções imediatas até atingir a maestria. Se o estudante não está aprendendo, cabe ao professor corrir o programa.”

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Relevante: A criança tem muitos livros em casa.
Irrelevante: Os pais lêem para a criança quase diariamente.

Conforme observado anteriormente, comprovou-se que uma criança com muitos livros em casa realmente se sai melhor nos estudos. Ler regularmente para ela, porém, não afeta suas notas. Tal afirmação parece encerrar um enigma, remetendo-nos à pergunta original: quanto exatamente, e de que forma, os pais realmente importam?
Comecemos com a correlação positiva: ter livros em casa é igual a melhores notas na escola. A maioria inferiria dessa
correlação uma óbvia relação de causa e efeito. Vejamos: um garotinho chamado Isaías tem um monte de livros em casa. Ele se sai muitíssimo bem nas provas de leitura na escola, provavelmente porque o pai ou a mãe costuma ler para ele. No entanto, a coleguinha Emily, que também tem um monte de livros em casa, praticamente nunca toca neles, preferindo brincar com sua Barbie e ver desenhos na televisão. Emily tem exatamente o mesmo desempenho escolar de Isaías. Por outro lado, o amiguinho de Isaías e Emily, Ricky, não tem nenhum livro em casa, mas freqüenta a biblioteca diariamente com a mãe; Ricky é um leitor fanático.
Curiosamente, seu desempenho escolar é pior do que o de Emily ou o de Isaías.
O que deduzir daí? Se ler livros não produz impacto nas notas escolares da primeira infância, será que sua mera presença física na casa torna as crianças mais inteligentes? Exercerão os livros algum tipo de osmose mágica no cérebro infantil? Se assim é, poderíamos nos ver tentados a simplesmente enviar um caminhão abarrotado de livros para todas as casas em que moram crianças em idade pré-escolar.
Com efeito, foi o que tentou fazer o governador de Illinois. No início de 2004, o governador Rod Blagojevich anunciou sua intenção de enviar um livro por mês a cada criança do estado, desde o nascimento até o ingresso no jardim-de-infância. O plano custaria $26 milhões anuais, mas, para Blagojevich, tratava-se de uma intervenção vital em um estado onde 40% dos alunos de 3ª série se encontravam abaixo da média em leitura. “Quando se possui [livros]
e eles são seus”, disse ele, “fazem parte da sua vida, isso contribui para uma sensação… de que os livros devem fazer parte da sua vida.”
Assim, todas as crianças nascidas em Illinois teriam uma biblioteca de 60 volumes ao ingressarem na escola. Isso resultaria em notas mais altas em leitura? Provavelmente não (embora jamais venhamos a saber com certeza: no final, o Legislativo de Illinois rejeitou o projeto). Afinal, os dados do Estudo Longitudinal não dizem que ter livros em casa
produza notas mais altas, indicando apenas que os dois fatores estão correlacionados.
Como interpretar tal correlação? Eis uma teoria provável: para começar, os pais que compram muitos livros infantis em sua maioria são inteligentes e instruídos (e transmitem seus conhecimentos e ética funcional aos filhos). Ou talvez se preocupem bastante com educação e com os filhos de maneira geral (o que significa que criam um
ambiente que estimula e premia o aprendizado). Esses pais acreditam — tão firmemente quanto o governador de Illinois — que cada livro infantil seja um talismã que conduz a uma inteligência ilimitada. No entanto, tal crença provavelmente não passa de um equívoco. Um livro é muito mais um indicador do que um agente de inteligência. Então o que tudo isso diz a respeito da importância dos pais em geral? Consideremos novamente os oito fatores do estudo
correlacionados às notas escolares:

A criança tem pais muito instruídos.
Os pais da criança têm nível socioeconômico alto.
A mãe da criança tinha 30 anos ou mais na ocasião do
nascimento do primeiro filho.
A criança nasceu com baixo peso.
Os pais da criança falam a língua nacional (inglês) em casa.
A criança é adotada.
Os pais da criança estão engajados na Associação de Pais e
Mestres.
A criança tem muitos livros em casa.
E os oito fatores sem correlação:
A família da criança está intacta.
Os pais da criança se mudaram recentemente para um bairro
melhor.
A mãe não trabalhou fora entre o nascimento do filho e seu
ingresso no jardim-de-infância.
A criança freqüentou o programa pré-escolar Head Start.
Os pais costumam levar a criança a museus.
A criança apanha com freqüência.
A criança assiste bastante à televisão.
Os pais lêem para a criança quase diariamente.

Supergeneralizando: a primeira lista descreve coisas que os pais são; a segunda, coisas que os pais fazem. Os pais realmente instruídos, bem-sucedidos e saudáveis tendem a ter filhos que se saem bem na escola. Aparentemente, porém, não faz grande diferença o fato de uma criança freqüentar museus, apanhar ou participar do programa pré-escolar Head Start, nem o de ler assiduamente ou se plantar diante da televisão. Para os pais — e os especialistas em parentalidade — que estejam obcecados com técnicas de criação de filhos, isso pode ser uma má notícia. A realidade é que, aparentemente, a técnica vem sendo supervalorizada.
No entanto, isso não significa que os pais não tenham importância. E claro que têm um bocado. Esta é a charada: quando se pega um livro sobre como criar filhos, já é tarde demais. A maior parte das coisas importantes foi decidida há
muito tempo – quem somos, com quem nos casamos, que tipo de vida leva-mos. Se você é inteligente, trabalhador, instruído, ganha bem e está casado com alguém igualmente privilegiado, seus filhos têm grandes chances de se dar bem na vida (também não atrapalha, ao que tudo indica, ser honesto, equilibrado, carinhoso, bem como interessado pelo mundo à volta). Porém não se trata tanto do que você faz como pai, mas de quem você é.
Nesse sentido, um pai superprotetor lembra muito um candidato político que acredita que o dinheiro ganha eleições, quando na verdade todo o dinheiro do mundo não é capaz de eleger alguém que os eleitores não apreciem.
Em um trabalho intitulado “The Nature and Nurture of Economic Outcomes”, o economista Bruce Sacerdote abordou o debate natureza-criação, fazendo uma avaliação quantitativa de longo prazo dos efeitos da criação de um filho. Utilizou três estudos sobre adoção – dois americanos e um inglês –, contendo da-dos consistentes a respeito das crianças adotadas, seus pais adotivos e os biológicos. Sacerdote descobriu que os pais que adotam filhos são quase sempre mais inteligentes, mais instruídos e mais bem pagos do que os pais biológicos do bebê. No entanto, as vantagens dos pais adotivos exercem pouca influência sobre o desempenho escolar do filho. Como também foi visto nos dados do Estudo Longitudinal, os filhos adotivos tiram notas relativamente baixas na escola; qualquer que seja a influência que
os pais adotivos exerçam, ela aparentemente é suplantada pela força da genética. Sacerdote descobriu, porém, que os pais não permanecem impotentes para sempre. Ao se tornarem adultos, os filhos adotivos já deram uma guinada expressiva quanto ao destino que lhes fora reservado apenas em função do seu QI. Comparados a crianças similares que não foram entregues à adoção, observou-se que os adotados são muito mais propensos a freqüentar a
universidade, conseguir empregos bem remunerados e esperar até o final da adolescência para casar. E a influência dos pais adotivos, concluiu Sacerdote, que faz a diferença.

Levitt & Dubner do Livro Freakonomics

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“Eu apenas não acredito que um pai comum pode fazer um bom trabalho. O que aconteceu no passado é que a cultura fomentou rotinas para direcionar as crianças. Espanca-se pelo que fazem de errado; não espanca-se pelo que fazem de bom; e assim por diante. Cada uma dessas práticas produzem certo tipo de pessoa. As vezes produzimos pessoas empreendedoras, as vezes pessoas preguiçosas. Mas o ponto principal é que que não temos mais culturas estáveis; então o pai comum não sabe mais o que fazer. Os livros sobre educação infantil são, sobretudo, confusos porque você não pode aplicar o que eles recomendam: “Vá em frente e ame seu filho”.

Isso pode estar certo, mas você não pode simplesmente sair e comprar três litros de amor. E se a criança realmente não for amável você não pode falsificar amor. Falsificar amor é provavelmente a pior de todas as comodidades. Mas eu sinceramente não sei; e é por isso que eu tendo a ser um sonhador utópico.” Skinner

Trecho de entrevista que Skinner concedeu a Psychological Science

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Lembre-se: nosso comportamento é sempre controlado, se conhecermos os controles poderemos escolher o quais queremos que controlem o nosso comportamento.

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